Parlamentarismos de ocasião

A história do parlamentarismo na República obedece conveniências, conjunturas, embora tenhamos tido vários políticos, e mesmo partidos, com fundamentadas plataformas parlamentaristas.

Em 1961, o parlamentarismo foi a solução a garantir a posse de João Goulart na presidência, após a renúncia de Jânio Quadros. Na Constituição de 1988, foi marcado um plebiscito que poderia alterar o sistema de governo – vivíamos o fim de uma década complicada, e a troca era mais uma ideia mágica que uma alternativa consistente. Acabou rejeitada pela população.

Agora, em meio à baixa popularidade do governo federal, o presidente da Câmara dos Deputados, deputado Eduardo Cunha, acena com o tema novamente. O parlamentarismo absorveria melhor crises como a que estamos vivendo, já que garantiria uma alteração mais rápida na chefia do governo e mesmo uma eventual convocação de novas eleições legislativas.

Pois em 1989, ao longo do segundo turno, quando Collor e Lula se enfrentavam, uma proposta de implantação do parlamentarismo já a partir do governo que assumiria em 1990 foi aventada. A ideia nasceu no Congresso, e foi bancada pelo deputado Maurílio Ferreira Lima, do PMDB pernambucano.

Atendia a dois temores do status quo político: tanto Collor quanto Lula, caso vencessem a maior eleição da História, não teriam maioria parlamentar. Isso poderia gerar mais confusão e instabilidade – como, de fato, ocorreu após a vitória do candidato do PRN. O segundo temor era menos confessável, mas tão real quanto: o medo de que a esquerda chegasse ao poder. Quando a discussão começou, no meio da disputa do segundo turno, a diferença entre Lula e Collor caía dias após dia.

A discussão foi encerrada em poucos dias, pois mesmo parlamentaristas históricos sentiram o gosto do casuísmo presente na proposta.

Mas, percebemos, o parlamentarismo segue sendo uma das ideias presentes no arsenal da política brasileira.

Volta e meia, está na superfície.

Publicado em Sem categoria | 1 Comentário

Uma democracia tutelada

há vários vídeos por aí com falas de manifestantes que pedem, em geral nos sábados à tarde, a volta do regime imagemmilitar.
gente pior não tem.
na eleição presidencial de 1989, a primeira pós ditadura, o país estava recém começando a estabelecer seu sistema democrático.
a sombra que os militares projetavam sobre a política era imensa.
em relação às candidaturas de esquerda – Lula, Brizola e Freire, em especial -, só críticas.
e ameaças veladas.
a charge ao lado é de Millor Fernandes. mostra o ministro do exército, general leônidas pires gonçalves, observando o país pelas frestas de sua janela.
um milico de prontidão.
hoje, as forças armadas parecem estar em seu lugar, nos quartéis, longe da política. foi uma dura batalha colocá-los ali.

e a seguir mais um trecho do livro “1989 – A Maior Eleição da História”

“O fantasma da intervenção militar estava vivo. Não parecia prudente cutucar a caserna. As seguidas manifestações de membros da cúpula das Forças Armadas ao longo da campanha presidencial provam isso.
Um exemplo é a fala do ministro do exército, Leonidas Pires Gonçalves ao principal jornal norte-americano, The New York Times (NYT). No dia 17 de novembro, o NYT ainda não cravava Lula no segundo turno.
Apontava a possibilidade de Brizola obter a vaga. Seriam ‘dois esquerdistas’ na luta pelo segundo lugar. Pois o ministro do exército não resumiu suas análises políticas ao Brasil. Disse ao correspondente novaiorquino que ‘Nós (brasileiros) não podemos ir contra o curso da história’. Lembrando a fuga em massa da Alemanha Oriental após a queda do Muro de Berlim, completou afirmando que ‘o que é chamado de esquerda é antigo e não é bom para o Brasil’. Pausa para reflexão.”

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Em 1989, Lobão queria Lula lá!

Lobão, querido, “quem te viu, quem te vê”, já diria o amigo do Vinicius.lobao-mst-lula-esquerda
Quem nasceu pelas anos 1990 e vê Lobão atualmente urrar contra tudo que seja levemente de esquerda, ficaria espantado com as aventuras do roqueiro nos anos 1980.
Rebelde, bem falante, progressista, preso por porte de drogas (chegou a cumprir pena em presídio, onde virou “xerife” de cela) e militante de esquerda.
Era um dos grandes contestadores da Nova República, acordão que levou o país de volta à democracia, via Tancredo, Sarney, PMDB e PFL.
Hoje, é um pastiche daquele inconformado e demolidor letrista.
Abaixo, trecho do livro “1989 – A Maior Eleição da História”, em que Lobão, em pleno dia de votação do segundo turno de 1989, aparece no programa Domingão do Faustão.
Naquele dia, o artista fez, ao vivo, uma apaixonada defesa da campanha petista, sendo logo eliminado por uma década das aparições na Rede Globo.
Acreditem, aconteceu: https://www.youtube.com/watch?v=LJ3seRSSc8g
“1989 – A Maior Eleição da História”, Páginas 125-126:

Estamos na tarde daquele domingo (de segundo turno da eleição presidencial de 1989) e Lobão entra ao vivo na programação global. Antes de mais nada, cobra das pessoas o fato de estarem ali e não votando. Lembra: “É até as 5 da tarde, tem que votar”. Em seguida, aumenta o tom: “sai daqui e vai correndo, vai votar sem medo de ser feliz, não é verdade?”. “Sem medo de ser feliz” era uma frase símbolo da campanha de Lula. Ao mesmo tempo, o roqueiro fazia o L, de Lula, com a mão esquerda.
O mais desconcertante ocorreu quando Lobão executou a música “Quem quer votar”. Neste momento, reelaborou o refrão, que era o título da música repetido várias vezes por um chamamento ao voto no PT. Ficou mais ou menos assim: “Quem vai votar / Quem vai votar ? É Lu-la-lá. Ao fim, grita: “Lula, sem medo de ser feliz, Lula!”
A banda que acompanhava o cantor ensaiou os primeiros acordes do jingle petista “olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”. Antes de encerrar, faz um aviso-provocação: “Sem medo de ser feliz, sem crime eleitoral, isso é apenas uma preferência nacional”.
A punição por crime não veio. O que veio foi uma ordem da direção da Globo que baniu o cantor por longos anos de todo e qualquer programa da rede. Mesmo sem a visibilidade global, Lobão sobreviveu, e hoje é um dos maiores adversários do modelo petista de governar.

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

A quase-candidatura Silvio Santos

O pleito de 1989 foi o retrato do confuso país que atravessara os anos 1980.
Foi uma eleição televisiva, com longos debates e horas de propaganda gratuita, que alcançava grande índices de audiência.hqdefault
A televisão também atuou como agente político, em especial a Rede Globo, apontada por muitos como fundamental para a vitória de Fernando Collor.
Destaco aqui um momento daquele pleito, que conto no livro “1989 – A Maior Eleição da História”.
Caso se concretizasse, seria o cúmulo da influência televisiva em eleição: a menos de 20 dias do primeiro turno, Silvio Santos lançou-se candidato e embaralhou a sucessão.
Nas pesquisas de intenção de voto coletadas logo após seu ingresso na disputa, atropelou os adversários.

Mas foi tudo uma breve aventura.
No dia 9 de novembro de 1989, contudo, seu registro de candidatura foi negado pelo TSE, para alívio de Roberto Marinho, dono da Globo, de Fernando Collor, que viu sua vitória ameaçada e de Lula e Brizola, que, com a entrada de Silvio Santos, pareciam dar adeus à disputa do segundo turno, que parecia fadada a ser decidida entre o popular apresentador e Collor.

Trecho do Livro “1989 – A Maior Eleição da História”
Pgs. 93-94

” (…) foi usando todo o peso de sua audiência e todo seu charme como comunicador que a candidatura foi gestada. Sua plateia era muito maior e sua mensagem não vinha embutida em um formato político-eleitoral, mas como entretenimento, em um ambiente habilmente montado pelo gênio comunicativo do dono do SBT.
As aparições de Silvio falando sobre sua possível candidatura podem ser encontradas até hoje na internet, e devem ser considerados uma obra-prima de oportunismo político. É fundamental lembrar que não foi apenas a popularidade de Silvio a explicar o seu sucesso nas primeiras pesquisas como candidato.

(…)

O impacto da candidatura Silvio Santos nos números das pesquisas de intenção de voto foi avassalador. O apresentador tirava votos de todos os candidatos, em especial de Collor e parecia eliminar qualquer possibilidade de um segundo turno com a presença de Brizola ou de Lula.
Sílvio Santos assumia o primeiro lugar. A esquerda, por sua vez, perdia as esperanças de chegar à Presidência. No dia 2 de novembro, o Estado de São Paulo divulgou pesquisa do Instituo Gallup em que os eleitores puderam ter a dimensão do estrago que Sílvio Santos fazia nas demais candidaturas.
O apresentador de televisão desbancava Collor do primeiro lugar na corrida presidencial, algo inimaginável. Arrancaria com 29% das preferências. Collor ia para um segundo lugar, com 18,6% das intenções de voto. Lula ficava com 10,6% e Brizola com 9,9%. A menos de 15 dias do primeiro turno, e em se confirmando a candidatura Silvio Santos, pouco poderia ser feito para que se evitasse um segundo turno entre o dono do SBT e Fernando Collor.”

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Setembro/Outubro de 1989 – A”onda” Afif

guilherme-afif-domingues-foi-a-aposta-do-pl-na-eleicao-presidencial-de-1989-chegou-a-despontar-em-popularidade-mas-acabou-na-sexta-colocacao-1380990340118_956x500Guilherme Afif Domingues era o candidato do PL no pleito de 1989.

Entre setembro e outubro começou a crescer nas pesquisas.
Ao ser atacado pelos concorrentes, teve seu passado investigado.
Não foi preciso ir longe: entre 1987 e 1988, Afif havia sido um péssimo deputado constituinte.
Votara contra todos os projetos de interesse dos trabalhadores; foi contra o voto dos jovens de 16 anos e e ausentara-se de uma série de votações importantes. Algumas dessas ausências foram decisivas para a sua derrocada: aquelas em que se decidia a ampliação dos direitos às pessoas com deficiência.
Embora tenha usado pela primeira vez a tradução em libras de suas falas no Horário Eleitoral (o que viria a ser incluído da Lei Eleitoral), não estava conectado com este público enquanto se redigia a Constituição Federal.
Mas foi uma onda marcante naquela ano de 1989, que assustou não apenas os candidatos à esquerda, mas também o líder das pesquisas, Fernando Collor de Melo.

Anos depois, nas incríveis reviravoltas da política brasileira, Afif seria ministro no governo de Dilma Roussef.
Em 1989, associava permanentemente o PT ao comunismo do Leste Europeu.

A seguir trecho do livro “1989 – A Maior Eleição da História”, Pg. 67

“Entre meados do mês de setembro e o início de outubro, faltando pouco mais de 45 dias do pleito, um dos competidores fez assessores e demais candidatos entrarem em quase pânico. Guilherme Afif Domingues entrava de vez na busca pela vaga ao segundo turno, mas não desestabilizava apenas os dois candidatos mais próximos à sua frente, Brizola e Lula. Seu destaque ameaçou a campanha de Collor, e foi Collor quem efetuou as mais pesadas investidas contra Afif.”

– Vídeo com trecho da campanha eleitoral de Guilherme Afif Domingues em 1989

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Religião e eleição de 1989

Em 1989, o apoio de religiosos de todas as confissões foi amplamente buscado pelos candidatos.

Nada do que não siga acontecendo até hoje.

Ainda não se tinha claro o potencial eleitoral dos evangélicos pentecostais.

Sua escolha, no entanto, era transparente: Fernando Collor.

10704069_10203092650825424_1574586161381508161_n“A opção de líderes evangélicos por Collor, além de demonstrar o apreço pelo candidato do PRN, dava-se em contraponto a uma possibilidade que lhes parecia terrível: a vitória de um candidato de esquerda. Segundo noticiado no jornal O Estado de São Paulo, por exemplo, todos os então oito mil pastores da Igreja Quadrangular receberam uma carta, enviada pelo presidente da Ordem, Eduardo Ezdrogevsc, pedindo que os fiéis fossem orientados a não votar em Lula, Brizola, Mario Covas e Roberto Freire. Na carta, o líder justificava; ‘A esquerda tem dificultado o nosso trabalho em todo o mundo’.”

página 67 – 1989 – A Maior Eleição da História – Rodrigo de Aguiar Gomes

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

“Filhote da Ditadura!”

BrizaLufapenas um diálogo dos tantos debates televisivos daquele pleito foi transcrito no livro “1989 – A  Maior Eleição da História”.

foi uma discussão antológica.

leia e assista, é imperdível:

Brizola e Maluf, dia 16 de outubro de 1989, rede Bandeirantes de Televisão

“Maluf: Quero dizer com toda a tranquilidade que não vim aqui para ouvir baixarias. Vim aqui para debater ideias. Eu vim aqui debater com pessoas que querem ser candidatos a presidente da República e, portanto, são obrigados a ter estabilidade. (…).
Brizola: …Dá licença, me dá um aparte?
Maluf: Não lhe dou aparte porque tenho esse minuto…
Brizola: … Não pode dar aparte…
Maluf: Não lhe dou aparte!
Brizola: Não dá porque não pode. Filhote da ditadura!
Maluf: Não lhe dou aparte, o senhor tenha respeito.
Brizola: Filhote da ditadura!
Maluf: Desequilibrado!
Marília Gabriela (mediadora): Por favor…
Maluf: Desequilibrado. Passou quinze anos no estrangeiro e não aprendeu nada (palmas da plateia). O pior é que não esqueceu nada, não esqueceu nada! O pior, continuou o mesmo de quando foi, não aprendeu nada.
Brizola (agora falando para a plateia): Malufistas. Filhotes da ditadura! Todos engordaram na ditadura!
Marília Gabriela (mediadora do debate): Intervalo, por favor.”

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário